
Maternidade e Ninho Abandonado
Que sorte a nossa quando a experiência do ninho vazio é experimentada só porque eles se mudaram, só porque eles alçaram voo solo. Sim, que sorte a nossa. Que sorte difícil de engolir…
A gente, mãezonas descoladas, antenadas, vitaminadas, que leem livros sobre maternidade, que idealizam e lutam pelo melhor para os filhos, a gente que brada aos ventos que criamos nossos filhos para o mundo, sim, eu, você e todas as mães bem-intencionadas, se formos sortudas o suficiente, um dia esse tal de mundo virá cobrar essa promessa.
Assim que escrevi isso, me lembrei da história da Rapunzel, cuja mãe grávida dela e ávida por rabanetes, fez uma “promessinha de nada”, muito provavelmente que a bruxa dona da plantação estava brincando e que não levaria a sério o prometido, e trocou sua gravidez e filha por nascer por rabanetes durante toda a gestação (pelo menos é assim que eu me lembro da história). Assim como ela, a gente não acredita que esse dia de pagar a promessa (à bruxa, ou ao mundo) chegará tão rápido, e nos levará assustadoramente aqueles que nos são mais preciosos, nossos filhos.
Mas sim, eles levam. O mundo leva nossos filhos, sem dó nem piedade, mais cedo ou mais tarde, e é bom que leve, porque maternidade sem o segundo parto imaginário, aquele em que é cortado um segundo cordão umbilical invisível, se torna uma maternidade tóxica, codependente, e isso, te garanto, ninguém quer para si.
O mundo vai abocanhando nossos filhotes de mansinho, aos pouquinhos, enquanto a gente brinca de ensaiar empurrá-los do alto da árvore, testando se já estão aptos ou não a voar. Até que um dia, PLUFT!!! Eles voam, o mundo toma posse deles e eles tomam posse do mundo.
Dói. Mais neles do que na gente, afinal, já fizemos os nossos voos, as nossas escolhas, e neste momento, somos meras espectadoras, sem praticamente nenhum controle, tendo que assistir o mundo, a vida, ensinar nossos filhos sobre tudo aquilo que não demos conta de ensinar. Onde falhamos, ela vai lá e acerta, com muito mais força e menos colo, mas para colo, ah, a gente sempre estará aqui, isso não abandonamos, ficamos à espera, na torcida, por vezes orgulhosas, por outras apreensivas, e tudo bem, faz parte.
Nesta foto, meu primogênito, que já nasceu “velhinho”, sim ranzinza, mas muito responsável, curtia sua última festa junina na escola, último ano do ensino médio, eu assisti de camarote essa festa, dentro de mim eu já sabia que poucos anos depois ele já iria morar sozinho, trabalhar, se casar, e focar no núcleo dele, num novo núcleo onde os pais passam a ter papel de coadjuvantes (na melhor das intenções), e está tudo bem. Eles se reinventam, e abrem oportunidade para que a gente também se reinvente, e isso é de verdade maravilhoso! Falo isso do alto dos meus 50 anos, ele já com quase trinta, e uma relação construída sem melindres, sem mentiras, sem mimimis.
Aliás, antes de encerrar, esse termo mimimi, se eu o tivesse inventado, ele viria do inglês (me me me), que é quando uma pessoa acredita que o mundo gira em torno dela (me me me = eu eu eu em português.)
Enfim, maternidade é sim a maior e a mais desafiadora oportunidade de amar altruisticamente, de aprendizado e evolução que uma mulher pode ter, isso se ela se dedicar a ela, como a grande maioria se dedica, e se ela conseguir abrir mão dela, pelo menos de uma forma de viver a maternidade que não caberá mais, sem abrir mão do amor, e vivendo-a pelo amor, e não pela dor, coisa que apenas uma parte de nós consegue alcançar…
Haja terapia!
TMJ, amo vocês!

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