Em entrevista à CARAS Brasil, a psicanalista Fabiana Guntovitch reforça a importância da liberdade sexual feminina, defendida por Monique Evans

Monique Evans (68) usou as redes sociais para falar sobre sua vida sexual com a esposa, a DJ Cacá Werneck (38), e levantou a discussão sobre a importância de as mulheres com mais de 60 anos sentirem prazer. A atitude se tornou assunto na web, e muitos elogiaram a influenciadora.
Em entrevista à CARAS Brasil, a psicanalista Fabiana Guntovitch reforça a importância da atitude de Monique Evans. Ela explica que o preconceito em relação à vida sexual livre das mulheres se intensifica na terceira idade, e está diretamente relacionado à importância da existência feminina.
“Falar sobre os prazeres femininos é algo que nos autoriza a buscar o que faz sentido, dentro e fora da cama. O autoconhecimento sexual, da própria anatomia e das próprias preferências nos empodera, ao passo que o tabu sobre a sexualidade feminina tira das nossas mãos o poder sobre a nossa satisfação e nos coloca como objetos do parceiro, como meras coadjuvantes no ato sexual.”
Guntovitch diz que, até mesmo historicamente, o prazer feminino foi deixado de lado. Apesar de nunca ser tarde para começar, ainda muitas mulheres são deixadas de lado e a busca pelo prazer pode ser considerada um tabu —mesmo atualmente, em que o feminino vem reivindicando seu lugar.
“O olhar julgador e crítico para com o prazer sexual feminino não é um problema apenas etarista mas, sim, de gênero. Segundo um estudo chamado ‘A Lacuna do Orgasmo’ (The Orgasm Gap) foram levantados dados alarmantes“, explica a especialista, que lista os dados abaixo.
- 15% das mulheres nunca tiveram um orgasmo (The Case of the Female Orgasm, Elisabeth Lloyd);
- Em relações heterossexuais: 95% dos homens têm orgasmo regularmente, contra 65% das mulheres (Journal of Sex Research, 2017);
- Apenas 35% das mulheres atingem orgasmo unicamente com penetração vaginal (Archives of Sexual Behavior, Differences in Orgasm Frequency Among Gay, Lesbian, Bisexual, and Heterosexual Men and Women in a U.S. National Sample, E. Lloyd et al. 2017).
A psicanalista diz que a desigualdade entre os gêneros impacta diretamente a vida das mulheres, não apenas socialmente, mas também no campo sexual e da saúde mental. Unido ao etarismo, isso pode invalidar a existência de muitas.
“Associar velhice à ‘assexualidade’ gera sentimentos de inutilidade e isolamento. Sentimentos estes que, comprovadamente, agravam quadros de ansiedade e depressão. Seres humanos precisam se sentir úteis, inseridos e conectados. A solidão, o abandono social e o de si mesmo na terceira idade, a partir de tabus etaristas é um preditor importante de adoecimento físico e, especialmente, psíquico.”
Guntovitch reforça a importância da atitude de Monique Evans, ao usar as redes sociais para falar sobre o tema. “Ignorar a libido é ignorar uma força potente que nos mobiliza e nos move e isso não podemos jamais ignorar, independentemente da idade. [É preciso] se despir dos tabus, vergonha e inadequação e se permitir existir inteira, desejante de prazer, seja ele sexual ou de qualquer outro tipo.“


